Retração nas vendas de caminhões e ônibus terá mais impacto em abril

A pandemia do novo coronavírus já afetou fortemente a produção e vendas de caminhões e ônibus no país neste primeiro trimestre de 2020 e já impacta negativamente também este início do segundo trimestre do ano, com as montadoras paralisadas. “A situação vai ser mais impactante em abril”, atesta Luiz Carlos Moraes, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No acumulado de janeiro a março, as vendas de caminhões foram de 20.135 unidades, uma queda de 6,2% sobre o mesmo período de 2019, e emplacados 3.661 chassis de ônibus, uma retração de 21,8% em comparação ao primeiro trimestre do ano passado.

Em relação ao mês anterior, o volume de vendas de caminhões em março (6.438 veículos) mostra um crescimento de 0,4% sobre fevereiro (6.412 unidades), um resultado que foi influenciado pelos primeiros 15 dias do mês, quando a indústria ainda estava ativa. No segmento de ônibus, os emplacamentos de março (883 unidades) já mostraram queda de 31,3% sobre o apurado em fevereiro (1.286 unidades).

vendas de caminhões

As montadoras começaram a parar suas atividades e meados de março. “Eu já havia sinalizado risco de parada por conta de falta de peças e componentes da cadeia de produção vindos da China”, comenta Moraes, em entrevista coletiva à imprensa, transmitida virtualmente. O resultado de março, diz ele, foi impactado tanto pelo absenteísmo de peças quanto, principalmente, pela parada das fábricas. “Algumas montadoras começaram adotando o home office e vários cuidados na linha de produção, para a segurança dos trabalhadores, adotaram novos cuidados nos restaurantes internos, no transporte de funcionários, mas algumas decidiram pela parada total por segurança dos trabalhadores para evitar o risco de contaminação”, explica o executivo.

Impacto nos leves e médios

Os perfis de caminhões que foram mais impactados pelo isolamento decorrente do Covid-19 foram os médios, que sofreram retração de 18,4% no trimestre, em comparação a igual período do ano passado, com licenciamento de 1.787 veículos no acumulado de janeiro a março, e os leves, cujo emplacamento diminuiu 14,4%, para 2.205 unidades no mesmo período. Segundo Gustavo Bonini, vice-presidente de veículos pesados da Anfavea, esses números refletem o movimento menor do segmento de distribuição de mercadorias, afetado pela retração de consumo no varejo, que se acentuou nas últimas semanas de março. “É cedo para uma análise mais profunda, mas dá para observar que houve queda acentuada, nas últimas semanas, no transporte da chamada última milha”, comenta.

Já as vendas de caminhões pesados mostraram performance menos dramática, com queda de 4,6% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2019, com 10.195 veículos licenciados de janeiro a março, e os semipesados apresentaram resultado positivo, com alta de 6,1% na comparação dos trimestres e emplacamento de 4.905 unidades frente a 4.625 licenciadas no primeiro trimestre do ano passado. Isto porque, o transporte de longa distância manteve-se em alguns segmentos, como o agronegócio, e algumas compras já encaminhadas foram concretizadas nos últimos dias de março.

“Caminhão é sinônimo de PIB (Produto Interno Bruto). Ninguém compra um caminhão novo porque mudou o modelo, compra porque há um transporte a ser feito e é evidente que os números do setor de caminhões vão refletir o que acontecerá com a economia como um todo”, declara Bonini.

Ele afirma que há um consenso das dificuldades que a economia nacional terá que passar no terceiro trimestre e mais fábricas fechadas em abril vão impactar o setor. “Estamos atentos às ações econômicas que o governo está tomando para saber que caminho isso vai trilhar para o caminhão e que ações tomar para mitigar os impactos para o setor”, diz.   

Alteração de preços

Em relação à possibilidade de redução nos preços de caminhões e ônibus após a crise da pandemia de coronavírus – vale lembrar que muitos economistas cogitam a possibilidade de redução de preços de algumas mercadorias para estimular o consumo e fazer caixa nas empresas, após a crise da Covid-19 –, Bonini diz que é difícil avaliar agora qual será a impacto econômico do que está ocorrendo. “Nunca antes, na história recente, passamos por uma crise com o perfil desta. Tenho visto diferentes análises econômicas para o terceiro ou o quarto bimestre, mas é muito recente para saber o impacto real que isto trará para a economia”, avalia.

Automóveis têm quase 90% de queda na quinzena

No segmento de automóveis, as vendas caíram 8,1% no acumulado de janeiro a março deste ano, em comparação a igual período de 2019, para 558,1 mil automóveis emplacados nos três primeiros meses do ano. Já na comparação de março sobre fevereiro deste ano, a retração foi de 18,6%, para 163,6 mil veículos licenciados no mês.

anfavea março

“Tivemos dois momentos bem distintos em março. Até o começo da segunda quinzena, as vendas estavam em alta, com crescimento de 9% no acumulado do ano, em relação ao ano passado. Mas o avanço da pandemia em nosso país foi provocando a interrupção das atividades nas fábricas e nas concessionárias, fazendo com que fechássemos o mês com queda de 8% no acumulado do ano”, explicou Luiz Carlos Moraes. O agravamento da crise da Covid-19 nas duas últimas semanas do mês fez as vendas despencarem quase 90% das primeiras semanas para as duas últimas, “o que projeta um resultado altamente preocupante para abril”. “O momento é de priorizar a saúde da população, e todas as nossas associadas estão dando sua contribuição no combate ao coronavírus, seja reparando respiradores, seja produzindo e doando máscaras, ou mesmo cedendo suas frotas para as mais diversas finalidades. Mas também é hora de uma conscientização de todas as esferas do governo, bancos e sociedade para criar mecanismos que permitam à cadeia automotiva atravessar esse período de retração com a preservação das empresas e dos empregos”, declara Moraes.

A Anfavea, porém, evita fazer previsões para os próximos meses. “Não nos sentimos seguros para fazer qualquer simulação e tentar quantificar esses impactos na economia de 2020. Nossas fábricas estão paradas, mas estamos nos estruturando para a retomada. A data depende do andamento da crise na saúde. Nossa preocupação, e a de todos os executivos das montadoras, é com a questão da saúde dos trabalhadores. A retomada depende do andamento da crise da saúde”, assinala o presidente da entidade.

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