O Brasil está atrasado na mobilidade do futuro? Sim e não.

mobilidade do futuro

A indústria automobilística brasileira está atrasada em relação ao desenvolvimento das tecnologias de propulsão do carro do futuro, num instante em que grandes mercados apontam para a eletromobilidade?

Sim e não. A resposta depende de ponto de vista de cada um. Mas uma coisa é certa: para que os grandes lobbies globais não se imponham, investimento em pesquisa e desenvolvimento será essencial para determinar o papel de cada região, principalmente a que estamos inseridos.

Nesta corrida, o Brasil está muito atrasado. É o ponto do piloto Luca Di Grassi, executivo da Roborace, empresa baseada na Inglaterra que desenvolve carros elétricos, autônomos e conectados para corridas e organiza competições com carros elétricos, a Fórmula E, em vários países.

“A indústria (do carro elétrico) simplesmente não existe aqui”, afirmou Di Grassi, durante encontro do SIMEA 2018, que neste ano reuniu, em São Paulo, mais de 1.200 profissionais do setor (a maioria engenheiros) para discutir a Rota para o Futuro da Mobilidade no Brasil.

 

“Estamos fora de tudo, da pesquisa à produção. Aqui nem uma bicicleta elétrica eu consigo montar”. (Luca Di Grassi)

 

Para o jovem executivo, a indústria do futuro já está estabelecida em vários mercados e vai desenvolver tecnologias para os carros comerciais a partir das competições de elétricos – como já foi no passado com a F1, na era de fortalecimento do motor a combustão.

 

“Nunca estivemos atrasados. Pelo contrário, estamos adiantados em relação ao resto do mundo há mais de 40 anos”. (Ricardo Simões de Abreu)

 

O diretor de pesquisa e desenvolvimento da Mahle Metal Leve, Ricardo Simões de Abreu, cita a criação do Pro-Álcool e conclui: “Em termos de emissões e eficiência, não há nada tão vantajoso como o que foi criado por nós.”

Por essa linha de pensamento defendida por Abreu, que tem adesão de várias montadoras e sistemistas da indústria, o Brasil poderá dar novos saltos de tecnologia e manter a dianteira nesta disputa, na medida em que entregar carros mais avançados em termos de segurança, conforto e eficiência em emissões e consumo.

A eletrificação, além da indefinição sobre a prevalência de tecnologia para o melhor aproveitamento das baterias, oferta de energia e legislação, tem sua viabilidade dependente de uma escala que permita uma produção industrial mundial.

Até que a equação seja resolvida, especialistas mais céticos acreditam que possam, em curto prazo, despontar soluções mais eficientes, como a célula de hidrogênio, que produziria energia não só para o carro como também para a casa do usuário.

Por ora, os elétricos ganham impulso por imposição chinesa, que vem forçando a indústria mundial a tomar esta direção, em razão da poluição em suas grandes cidades, mas sem resolver uma fonte sustentável de energia limpa.

Uma opção daquele país é a aceleração da energia solar e eólica, mas ainda assim seria insuficiente para abastecer um mercado que produz acima de 20 milhões de veículos por ano para consumo próprio e exportação.

Segundo críticos, os chineses estão querendo apenas transferir a poluição das cidades para suas fronteiras inabitáveis, onde a energia elétrica, para abastecer os carros, seria produzida à base de fontes “sujas”, como o carvão.

Para o crescimento da indústria do carro elétrico, não contam países pequenos da Europa, como Dinamarca e Suécia, que podem exigir a eletromobilidade sem grandes transtornos, mas que não tem o poder de influenciar a tomada de decisões em escala global numa produção acima de 60 milhões de veículos por ano.

Com sua vastidão territorial e vocação agrícola, o Brasil não precisa entrar tresloucadamente nesta disputa, defendem os mais céticos.

Com cabeça fria e tempo, o país pode encontrar, por meio da pesquisa e desenvolvimento, um caminho muito mais sustentável. “No Brasil, o etanol fecha a questão da emissão e podemos ainda ser fonte de energias renováveis, como a célula de hidrogênio”, reforçou Abreu.

Por isso, a recente aprovação do Rota 2030, que ainda depende de validação em alguns pontos do Congresso Nacional, é a maior conquista do setor. O programa abre definitivamente as portas para a pesquisa e desenvolvimento partindo do princípio das potencialidades brasileiras.

Entre os maiores incentivadores do etanol como solução para o Brasil e base de produção para países sul-americanos, latinos, e africanos, está a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que representa as maiores marcas de veículos.

 

“Não podemos desperdiçar tudo o que já conquistamos”, resumiu Antonio Megale, presidente da Anfavea. “A partir desta base fantástica que já temos, podemos dar muito mais contribuições ao Brasil e a outros países em termos de eficiência energética e baixíssimas emissões.”

 

Pelo ponto de vista de Megale também se orienta a corrente de pensamento de que, no futuro, não uma só, mais várias fontes de energia se combinarão para impulsionar a mobilidade e diminuir a poluição do planeta.

Enquanto o jogo não está claramente definido, o governo brasileiro decidiu não perder tempo. Em parceria com o governo alemão, está criando um plano da eletromobilidade para definir um marco regulatório. Também reduziu a carga tributária sobre os elétricos.

Com o emplacamento de cerca de 3.000 carros por ano, o mercado é praticamente irrisório. Mas isso deverá mudar, principalmente, em relação a modelos híbridos. A iniciativa de construir uma eletrovia entre São Paulo e Rio é um passo importante para se mostrar um direcionamento.

Uma coisa é certa. O mundo está mudando rapidamente. E precisamos caber neste novo mundo, se quisermos uma indústria que participe do jogo.

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