Metalúrgico troca força pela sensibilidade na fábrica 4.0 da Scania

Fábrica 4.0 da Scania

No alto da fábrica da montagem de cabines da Scania, em São Bernardo do Campo, uma faixa pendurada no alto do teto anuncia algo como “o futuro chegou”. Num pé direito altíssimo, com luz natural e ar mais puro, esse futuro prenuncia uma fábrica muito mais limpa, segura e silenciosa que num passado nem tão longínquo assim.   

Nesse novo ambiente fabril, esqueça a figura do antigo metalúrgico sujo de graxa, suado e com esforços repetitivos. Agora ele está mais para um conferente do que para um soldador, apertador de parafusos. O esforço físico foi substituído pela percepção e a sensibilidade.

Não se vê estresse com a transferência das mãos humanas para os imponentes e repetitivos robôs a montagem de componentes de um caminhão. Cabe ao homem agora abastecer e conferir se há defeitos quase imperceptíveis, validando e certificando o processo industrial.

Ricardo Cruz, gerente executivo da fábrica de soldas - Fábrica 4.0 da Scania

O homem não foi dispensado dessa nova etapa industrial”, repetia constantemente Ricardo Cruz, gerente executivo da fábrica de soldas da Scania, enquanto conduzia um grupo de jornalistas por uma rampa no alto da fábrica, de onde é possível ver centenas de robôs montando as 19 configurações de cabines possíveis na nova geração de caminhões Scania “Ele teve apenas de se adequar, se preparar para novas etapas que exigem conhecimento diferente da fábrica do passado.”

Apesar da convivência mais pacífica entre homens e máquinas, a dúvida que fica é até quando o ser humano ainda precisará estar no chão da fábrica, principalmente nesta era da indústria 4.0. A impressão é que as máquinas já não cuidam de tudo para não causar uma hecatombe social. Ou seja, o homem já é perfeitamente dispensável.

A redução de postos de trabalho parece ser evidente, embora os executivos afirmem o contrário. Mesmo as vendas crescendo 15% em 2018, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) aponta os mesmos 128 mil postos de trabalho nas montadoras em 2017. A recuperação das vendas ano passado foi suficiente apenas para zerar as vagas antes em lay off durante a crise iniciada em 2014.

Obra prima

A fábrica da Scania em São Bernardo do Campo é o mais novo primor da indústria 4.0. Todos os processos podem ser controlados remotamente por um celular ou tablet. As máquinas vão se autorregulando e corrigindo. Os processos visam perfeição na condução da linha de montagem.

Fábrica 4.0 da Scania

Durante os dois últimos anos, mais de 100 brasileiros foram para a Suécia aprender a lidar com os robôs e os processos modernos de industrialização. Europeus também vieram ao Brasil dar os últimos retoques e validar a operação.

Agora, a soldagem de parte das cabines é feita a laser pelas máquinas, dispensando produtos e colas que deixavam imperfeições na junção do teto, eliminando vazamentos durante fortes chuvas na estrada.

A industrialização começa no pedido do caminhão na concessionária, com toda a configuração sendo repassada para computadores, que vão ditar o abastecimento na sequência de montagem dos veículos, numa operação logística perfeita.

Tudo isso evita estresse, estoque desnecessários e deixa mais rentável a operação da Scania, pois ela produz, com precisão cirúrgica, exatamente aquilo que foi encomendado. Toda a sequência é definida pelos supercomputadores, que eliminam planilhas e facilitam o trabalho do homem em todos os processos.

Com mais eficiência das máquinas, a Scania montou duas novas alas e treinou funcionários para encontrar defeitos ínfimos. Agora também, com ajuda de leitores óticos, eles passam a  certificar fornecedores, submetidos a rigorosos testes de qualidade.

Os componentes têm de ter grau zero de imperfeição. Desde a precisão nas cores até a aderência da superfície de um painel de instrumentos, por exemplo, tudo tem de estar em conformidade com o que foi desenhado na prancheta. O objetivo é dar ao cliente uma satisfação total dos produtos.

Ao se dirigir o caminhão Scania no final da visita à fabrica, sente-se nas mãos a evolução do caminhão. Um Scania hoje é mais fácil de se dirigir do que a maioria dos carros de passeio, tamanha a disponibilidade de tecnologias.

Com investimento de R$ 2,6 bilhões, a fábrica da Scania está agora numa produção crescente de 40 caminhões dia em dois turnos. O objetivo é passar para 110 em três turnos de produção, atingindo capacidade máxima.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta