Maior corredor para recarga de elétricos da América Latina começa a operar entre Rio e São Paulo

Maior eletrovia da América Latina

Começa a se desenhar uma infraestrutura para recarga dos veículos elétricos do país, o que de certa maneira pode incentivar consumidores interessados em adquirir um carro elétrico e se juntar a uma frota que este ano deve somar perto de 10 mil veículos no território nacional, incluindo 100% elétricos, híbridos e plug-in.

A montadora BMW Group Brasil, em parceria com a empresa do setor elétrico EDP Brasil, anunciaram o início de funcionamento, a partir de 23 de julho, do maior corredor com postos de carregamento para carros elétricos da América Latina – no Uruguai há um com 310 km de extensão – na Rodovia Presidente Dutra, ligando as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. Essa via é estratégica, registra mais de 900 mil viagens por dia e liga as duas capitais mais populosas do país.

São seis terminais de recarga instalados em postos da rede Ipiranga, três no sentido São Paulo–Rio e outros três no sentido Rio-São Paulo, cobrindo um trecho de, aproximadamente, 430 quilômetros entre as duas capitais, com distância máxima de 122 quilômetros entre um posto e outro.

Os pontos permitem recarga de até dois veículos simultaneamente, automóvel ou motocicleta, seja elétrico ou híbrido. Basta conectar o veículo e seguir as operações indicadas no painel do terminal de recarga. O tempo estimado para o abastecimento é de 25 minutos para uma recarga de 80% em um veículo com bateria de 22 kWh. Isso significa que o proprietário do automóvel tem que prever uma parada mais longa nesses postos, em comparação a um automóvel a combustível.

Por enquanto, o abastecimento será gratuito e somente a partir do próximo ano as empresas definirão o valor e a forma de pagamento. A questão do preço da energia elétrica para eletropostos também ganhou novo desenho com a recente regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que prevê possibilidade de livre negociação de preços de recarga, o que pode incentivar o segmento.

Para a BMW, a iniciativa pode ajudar na comercialização de seus veículos eletrificados, o 100% elétrico BMW i3 e o híbrido BMW i8, que entraram no mercado nacional em 2014. De 2015 até hoje, a BMW comercializou 203 veículos elétricos no país, dos quais 170 carros i3 e o restante do modelo i8.

A autonomia do BMW i3 é de 150 quilômetros, mas a nova geração que entrou no mercado nacional há cerca de um mês – após a montadora ter ficado alguns meses sem disponibilidade do modelo para comercialização no país – chega com maior independência. O novo i3 REX alcança 180 quilômetros de autonomia no modo exclusivamente elétrico (até 235 quilômetros no ciclo NEDC), e ganha mais 150 km com a ajuda do extensor de autonomia (REX), que agrega um motor a gasolina compacto, de 647 cm³, exclusivamente para gerar energia para as baterias de íons de lítio, acomodadas embaixo do assoalho.

Para ajudar a formar uma rede de pontos de abastecimento para seus clientes, a montadora já participou da instalação de 100 pontos de recarga junto a parceiros estratégicos da área de serviços, com shopping centers, por exemplo. “O futuro da mobilidade premium é eletrificado, conectado, compartilhado e autônomo. Esta ação antecipa futuros produtos eletrificados do BMW Group, a serem lançados em breve, no Brasil”, anuncia Helder Boavida, presidente e CEO do BMW Group Brasil. Segundo Boavida, a montadora planeja trazer novos modelos plug-in e híbridos para o mercado nacional e tornar a competitividade mais interessante.

O executivo acredita que a eletrificação não é “inimiga” de outras soluções, como o programa nacional de etanol, que ele considera “inteligente”, ou a opção flex. “Não são tecnologias antagônicas, são complementares”, assinala. Sua avaliação é de que o futuro será um misto de soluções. No Brasil a eletrificação terá uma velocidade diferente, em sua opinião, maior nas grandes cidades.

Este ano, até junho, foram comercializados no país 1.944 veículos elétricos, a maioria híbridos. No ano passado foram licenciados, de janeiro a dezembro 3.296 unidades, segundo levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Da frota nacional de 10 mil veículos elétricos, apenas cerca de 1 mil são 100% elétricos.

A BMW vendeu dez carros elétricos neste primeiro semestre. Sua venda geral de automóveis no país em 2018 ficou 20% maior até junho do que o registrado no primeiro semestre do ano passado, que terminou com emplacamentos de 10.160 BMWs, considerado o pior ano para a marca. Cerca de 80% das vendas foram veículos fabricados localmente, mas com boa parte de peças importadas.

Investimento

Para instalação dos seis equipamentos de carregamento rápido nos postos da Dutra, foram investidos R$ 1 milhão pelas empresas envolvidas. Além dos equipamentos, foi necessário fazer adaptações na infraestrutura dos postos, como reforço na parte elétrica.

“Este corredor elétrico constitui um marco significativo na adoção de uma tecnologia que marcará o futuro da mobilidade. A EDP interpreta esta parceria com a BMW como um movimento de liderança na transição para uma economia de baixo carbono”, declara Miguel Setas, presidente da EDP Brasil

Usuários do veículo elétrico

Para Edgar Escobar, presente da Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores (Abravei), que agrega 40 proprietários de veículos elétricos, esse novo corredor é um pontapé inicial que, junto à regulamentação da Aneel, deverá aumentar a implantação de eletropostos no país. “Vão aparecer mais empreendedores interessados em eletropostos porque agora será possível cobrar direta ou indiretamente, por kW usado ou por serviço”, diz ele, referindo-se a alguns estabelecimentos comerciais que cobram apenas uma taxa extra do cliente e liberam o uso do carregador rápido, independente do consumo em kW.

Escobar afirma que usa diariamente seu BMW i3, adquirido há 22 meses, no trecho urbano e também consegue fazer viagens sem qualquer percalço, graças ao recurso REX. “É o único modelo do mundo que tem isso e é uma grande sacada para o Brasil, que tem falta de infraestrutura. Não fico dependente exclusivamente de uma rede de eletrovias. Com nove litros de gasolina tenho autonomia de 150 km, dá 14 a 16 km com um litro de gasolina nesse acessório. Já fiz São Paulo até Cuiabá sem problemas”, conta. “Para encher um tanque do carro elétrico para rodar 150 km, hoje, gastaria numa faixa de R$ 12,50 a R$ 14, muito abaixo do que se fosse a combustão”, compara.

Esses proprietários estão atentos ao crescimento da infraestrutura. “Vai ter uma eletrovia de Paranaguá até Foz do Iguaçu, com seis pontos, já foram inaugurados dois”, relata Escobar. A Copel, distribuidora de energia paranaense, foi pioneira nessa área com a implantação de um corredor que vai cruzar o estado do Paraná por 700 quilômetros pela BR-277, entre Paranaguá e Foz do Iguaçu. A CPFL Energia tem dez eletropostos públicos na região de Jundiaí e Campinas, no interior paulista. Além de tomadas em shoppings e na sede da empresa, há pontos em postos da rede Graal nas rodovias Anhanguera e Bandeirantes.

“Estamos engatinhando, mas a demanda vai gerar necessidade de aumentar a infraestrura. Portugal, por exemplo, tem rede de eletrovias atravessando o país inteiro, assim como a Espanha. Aqui ainda faltam alguns incentivos, outros países dão subsídio para quem compra um veículo elétrico”, comenta. Ele acredita que a quebra do IPI para o carro elétrico, prevista no Rota 2030, será um novo ponto positivo para os veículos elétricos.

 

A expectativa dos consumidores que querem adquirir um veículo elétrico é a entrada de novos modelos de outras montadoras com preços mais acessívies, já que o veículo BMW é uma marca premium, com preços diferenciados mesmo para os carros a combustão.

Para 2019, são aguardados o Bolt EV, da Chevrolet, o Leaf, da Nissan, o e-Golf, da Volkswagen e o Twizy, da Renault. Escobar avalia que “essas montadoras tendem a ter carros mais acessíveis porque o veículo é construído na mesma plataforma do carro a combustão, só muda na hora de montar o motor elétrico, as baterias e o modo de controle. Já para o carro da BMW, a plataforma de produção é única e usa material de alto custo, como o cockpit que é de fibra de carbono.”

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