Locação de caminhões elétricos é opção para empresas carbono neutro

No mundo todo, os consumidores estão cada vez mais preocupados em saber se produtos e serviços que eles utilizam estão livres de emissões de poluentes no meio ambiente. Para o bem do planeta e para não perder seus clientes, a indústria e o setor de serviços buscam adequar suas atividades para reduzir o nível de emissões – principalmente de dióxido de carbono (CO2) que é tido como o grande vilão do aquecimento global – e conquistar certificações de carbono zero.

E é nessa pegada que uma nova empresa está conquistando um nicho de mercado ainda nascente no Brasil, mas já conhecido nos Estados Unidos. A KWfleet Mobilidade Urbana, que iniciou oficialmente suas atividades em janeiro deste ano, só aluga veículos 100% elétricos, tanto automóveis quanto caminhões. “Hoje, as empresas mais interessadas no conceito carbono zero são as europeias e as americanas porque elas seguem uma política de sustentabilidade e meio ambiente em suas matrizes e, lá, já estão colocando veículos elétricos para fazer entregas”, comenta Luiz Carlos Magalhães, CEO da KWfleet Mobilidade Urbana.  

Furgão T3 BYD da KWfleet

Em parceria com a chinesa BYD – considerada a maior fabricante de veículos elétricos do mundo – a KWfleet tem atualmente 11 veículos de carga alugados, circulando em operações de distribuição de produtos de seus clientes, e está investindo cerca de R$ 130 milhões na aquisição de 270 novos carros elétricos, entre veículos de carga e automóveis, para atender à demanda de novos contratos fechados para o período 2019/2020. “Nosso objetivo é, em cinco anos, ter 10.000 veículos elétricos rodando no Brasil”, diz Magalhães. Pelos seus dados, atualmente, existem no país cerca de 300 veículos 100% elétricos em circulação, ou seja, as 270 novas unidades da KWfleet quase dobrariam a frota de carros 100% elétricos do país. Até agora, a empresa investiu R$ 2,5 milhões nos primeiros 11 que já estão alugados.

“O foco da KWfleet é a sustentabilidade através da locação de veículos urbanos 100% elétricos e utilizando exclusivamente energia de fonte limpa, seja ela eólica, hidrelétrica ou solar. Não vamos usar energia de origem termelétrica, não vamos usar combustível fóssil, porque lá na frente vamos poder certificar para o cliente que ele usa energia 100% limpa, que o veículo dele emite zero CO2, e com essa certificação o cliente vai poder buscar crédito de carbono”, declara Magalhães.

Segundo o CEO da locadora, foram assinados até junho 18 contratos e três já estão em operação. O primeiro cliente da KWfleet foi a Heineken com a locação de caminhões e furgões 100% elétricos que começaram a circular em janeiro na operação de distribuição de bebidas. Outro cliente da locadora é a empresa Carbono Zero Courier, que transporta documentos, produtos e alimentos exclusivamente com bicicletas e veículos elétricos como os furgões que alugou da KWfleet.

Segundo Magalhães, o perfil dos principais clientes é de empresas que precisam entregar um produto em um ponto de venda ou empresas prestadoras de serviços em grandes centros urbanos e que querem eliminar os problemas ambientais. “Empresas que precisam fazer entregas diariamente, porta a porta, podem até usar bicicletas para entregar um medicamento ou uma pizza, mas para uma grande quantidade de alimentos é preciso um veículo urbano de carga, no padrão de um VUC (Veículo Urbano de Carga) ou um toco (caminhão chassi-cabine) para entregar no ponto de venda, seja num restaurante, um bar ou um pequeno mercado e este é o nosso foco”, declara. Uma das vantagens do veículo elétrico, por exemplo, é ficar livre do rodízio de veículos o que representa ganhar um dia de disponibilidade do caminhão para operar.

Automóveis

Além de veículos pesados, a KWfleet vai disponibilizar também automóveis 100% elétricos, sempre para o segmento corporativo. A empresa afirma ter um pedido de automóveis já colocado de um cliente que quer o modelo i3, da BMW, para os executivos da empresa, mas Magalhães diz não poder revelar maiores detalhes a pedido do cliente. “A população está preocupada com a questão ambiental, o consumidor final está olhando para as empresas sustentáveis, em todos os segmentos”, assinala o executivo.

Ele acredita que, no caso de automóveis, os primeiros que terão maior volume de venda no Brasil serão os mais caros, os carros de luxo, mesmo no segmento B2B, porque é um veículo adequado para executivos de grandes empresas que hoje têm carro importado a combustão e terão que se adaptar para seguir o conceito carbono zero. Mas, diz ele, o mercado ainda vai amadurecer, vai levar um pouco mais de tempo, até por conta dos preços que terão que baixar um pouco. “Acreditamos que no futuro também as empresas de aplicativos vão disponibilizar veículos elétricos pois isso já está acontecendo na Europa e nos Estados Unidos”, comenta. 

Parceria com a BYD

Por enquanto, todos os veículos da frota da KWfleet são trazidos da China pela BYD do Brasil. Segundo Magalhães, esta foi a única montadora com disponibilidade para atender à companhia imediatamente. O executivo conta que teve conversas com outras montadoras, como Volkswagen e Mercedes-Benz, mas somente a BYD pode atender a empresa neste primeiro momento.

“A Volkswagen e a Mercedes-Benz, infelizmente só terão caminhões elétricos (em escala comercial) no Brasil em 2023, porque se tivessem hoje também seriam meus fornecedores, como serão no futuro”, afirma Magalhães. De acordo com ele, a BYD tem uma certa limitação do que consegue trazer para o Brasil porque a China consome quase a totalidade da produção da montadora e o mercado americano leva outra parte.

A KWfleet recebe o caminhão da BYD com cabine e instala o implemento aqui no país, seja ele um baú simples, refrigerado, ou um sider. A locadora também entrega o veículo adesivado com a marca do cliente. O prazo desde a compra até a entrega ao cliente é de cerca de seis meses para caminhões e quatro meses para automóveis, tudo é sob demanda. Segundo Magalhães, hoje o caminhão 100% elétrico mais barato está na faixa de R$ 800 mil reais para compra e o mais caro em torno de R$ 1,1 milhão.

Contrato de locação

O modelo de contrato de locação dos caminhões elétricos segue até certo ponto o padrão de mercado, mas ganha alguns diferenciais, principalmente porque é totalmente customizado. A KWfleet fornece o veículo adesivado, cuida da manutenção, do seguro, treinamento dos motoristas, usa a telemetria para fazer a gestão de consumo, faz o controle de multas por veículo e por motorista e o valor do contrato inclui ainda a energia elétrica que será consumida.

“O fornecimento da energia elétrica é por nossa conta. Neste primeiro momento, com os primeiros veículos que já assinamos o contrato e estamos trazendo da China com a BYD, vamos usar energia comprada no mercado livre, de fonte limpa de geração. Mas, para 2020 ou 2021, já vamos atingir um volume de energia que justificará termos nossa própria fazenda solar para fornecer energia para nossos veículos”, revela Magalhães. O local ainda não está definido, mas já foi decidido que a fazenda de energia solar da KWfleet, será na região oeste do Estado de São Paulo devido à maior incidência solar.

O valor do contrato de locação também inclui a instalação da estrutura do eletroposto para recarga de energia dentro do cliente, seja uma área fabril ou um Centro de Distribuição, com projetos dimensionados de acordo com a necessidade operacional de cada frotista. “Eu instalo o eletroposto, que é meu, para o cliente usar, eu contrato e pago a energia que for para lá, é montado um relógio à parte, dou a medição de quanto cada caminhão ou automóvel usou de energia por mês e garanto ao cliente que ele não vai ter problema de abastecimento”, afirma o executivo.

Como os caminhões da BYD têm autonomia de 300 quilômetros, a limitação para usar um elétrico da KWfleet é um raio de 150 quilômetros a partir da cidade de São Paulo, porque é a distancia máxima de viagem que o caminhão pode fazer e depois retornar à base para recarregar antes de uma próxima viagem.

“O maior problema do veículo elétrico não é onde abastecer, o maior problema é onde vai fazer a manutenção. Então, nos vamos fazer a manutenção dos carros por conta da BYD, com os parceiros que ela contratou para cuidar da manutenção dos veículos elétricos nos centros automotivos autorizados. Ela tem parceria com a Bosch e com as oficinas da Porto Seguro. E o mercado aceitou bem isso”, explica o CEO.

Descarte sustentável

Para manter a pegada da sustentabilidade, a locadora dá garantia de descarte natural das peças. Os pneus serão entregues para cimenteiras ou empresas asfálticas e pastilhas de freio, amortecedores, serão enviados para aciarias, para conversão em produtos como arame farpado.

As baterias da BYD – que terão garantia de dez anos para automóveis e quinze anos para caminhões, que são os mesmos prazos dos contratos –, voltarão para a montadora se encarregar da reciclagem. “A bateria de lítio, depois de usada no veículo, pode ser aproveitada para armazenar energia solar, ou de outra fonte, para funcionar como gerador em regiões remotas”, assinala o executivo.

“A vantagem do elétrico, além da questão da sustentabilidade ambiental, é que eu dou ao cliente previsibilidade orçamentária, ele sabe exatamente o quanto vai gastar ao longo do contrato. Como compro no mercado livre, eu garanto que ele vai pagar o mesmo preço pela energia até o final do contrato, só corrigindo anualmente a inflação. Já o diesel é muito volátil porque está atrelado ao dólar”, explica.

Sócio da KWfleet, Luiz Carlos Magalhães é um executivo oriundo do mercado de locação de veículos, com 30 anos de experiência nessa área, e outros sócios vieram do mercado de energia e juntaram o conhecimento dos dois segmentos para compor esse modelo de negócio.

Locação de caminhões

O mercado de locação de caminhões em geral ainda é pouco dinâmico no Brasil, mas tem despertado a atenção de transportadoras, principalmente as que precisam renovar ou ampliar a frota e não fazem questão de ter a posse do ativo. “Vários setores perceberam que é muito melhor ter o bem para uso do que ter a propriedade dele. O custo intrínseco do negócio fica muito melhor e o frotista escapa de boa parte da burocracia e de manutenção já que, muitas vezes, esse serviço fica por conta da locadora. Além disso, ele tem sempre o caminhão disponível para utilizar quando precisa, com menos paradas”, diz Paulo Miguel Júnior, presidente do Conselho Nacional da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla).

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