Por ganância, o mundo atrasou o carro elétrico por mais de um século

Nos últimos dias, vimos pelo noticiário uma série de países e fabricantes impondo datas para o fim da produção do carro a combustão. Inglaterra, França e Suécia são algumas das nações que vão banir o uso de veículo a gasolina e a diesel. A Volvo também anunciou que em seus novos projetos a partir de 2020 só haverá veículos movidos à eletricidade. Por um planeta mais limpo e sustentável, engenheiros e autoridades preparam a chegada da era dos carros elétricos (puros ou híbridos) e outras fontes de energias renováveis e amigáveis ao ambiente.

Mas por que isso só acontece agora quando há relatos históricos de que o carro elétrico já vinha num estágio de desenvolvimento desde o século 19? Aqui mesmo entre nós, para não irmos tão longe, 42 anos atrás, em 1975, a Gurgel lançava em escala comercial o Itaipu, elétrico genuinamente nacional.  Por que, então, o mundo optou ou se deixou levar por uma tecnologia responsável por boa parte da poluição do planeta quando tinha outra mais eficiente à disposição?

 

Em 1975 a Gurgel lançou em escala comercial o Itaipu, elétrico genuinamente nacional

 

É óbvio que um dos principais fatores é o poder da indústria petrolífera, que se fortaleceu e passou a movimentar bilhões de dólares mundo afora. Empresas norte-americanas de energia estão sempre na dianteira e são as que mais lucram em todos os campos da atuação humana.

Segundo os especialistas, a baixa autonomia do carro elétrico no passado também contribuiu para que o veículo a combustão ganhasse a competição na medida em que crescia a infraestrutura rodoviária, principalmente, nos Estados Unidos e, depois, no restante do mundo. O desenvolvimento das baterias não teria acompanhado a necessidade dos grandes deslocamentos no setor de transportes rodoviário de cargas. Mas esta explicação não é convincente ao ponto de ameaçar a existência de todo um planeta com a emissão de poluentes.

Segundo o consultor Denys Ceglys, integrante da LIG Veículos Elétricos, em 1828 foi demonstrada pelo húngaro Ányos Jedlik, uma carroça adaptada com motor elétrico. Seria o princípio do veículo elétrico. Logo depois na Europa, Robert Anderson construiu e comercializou carruagens elétricas entre 1832 e 1839 usando pilhas não recarregáveis.

 

Thomas Edison ao lado do carro elétrico que chegou a rodar 1.000 milhas

No início do século 20, o norte-americano Thomas Edson montou um veículo elétrico, que já convivia com motores a gasolina e a vapor. Antes disso, porém, o inventor da lâmpada elétrica  já tinha construído um ônibus movido à eletricidade, em 1881, com outros engenheiros.

 

 

Os exemplares de carro elétrico não param por aí. O belga Camille Jenatzy demonstrou o primeiro veículo elétrico a passar dos 100 km/h. Nos Estados Unidos, em 1904, os primeiros anúncios recomendavam o carro elétrico para mulheres, pois não tinham cheiro de gasolina nem precisavam ser acionados por manivela.

De acordo com estudos de especialistas, em 1904, um terço dos carros das grandes cidades dos Estados Unidos eram movidos por energia elétrica, pois eram mais fáceis de guiar e menos barulhentos.  Uma das mulheres mais famosas na condução de um veículo elétrico era nada mais nada menos que Clara Ford, mulher de Henry Ford, um dos pioneiros da indústria automobilística ao criar a linha de produção.

O declínio dos veículos elétricos se deveu também em parte por causa da melhoria das estradas que necessitavam de uma maior autonomia em relação aos simples e curtos deslocamentos nas cidades – naquela época bem menor. A descoberta do petróleo no Texas também reduziu o preço do combustível fóssil.

Charles Kettering, em 1912, inventou a ignição elétrica, acabando com a partida a manivela.  Henry Ford criou o conceito de linha de montagem no ano de 1913 para o modelo T. Com isso, virou o jogo para os veículos a gasolina, que passaram a custar três vezes menos que um elétrico.

Com a supremacia do motor a combustão, o carro elétrico sumiria nos anos 1930 para só ressurgir por volta de anos de 1960 e 1970 com a crise do petróleo e a necessidade de se encontrar alternativas ao combustível fóssil.

Desde então, a evolução do carro elétrico tem sido fomentada por tratados, regulamentados por medidas internacionais para a redução de gases de efeito estufa e, mais recentemente, pelas políticas de desenvolvimento sustentável.

Em 1996, surgiu na Califórnia o EV1, um dos veículos elétricos mais eficientes dos quais se tem notícia. Sem emissões, rápido e com boa autonomia, o modelo colocou a indústria norte-americana no topo do desenvolvimento. Por que ninguém mais ouviu falar deste veículo revolucionário?

Para espanto geral, o carro foi descontinuado, sua linha de produção foi fechada e os trabalhadores dispensados. O projeto morreu silenciosamente sem que seus autores jamais se pronunciassem.

Veículos testados pela usina de Itaipu em parceria com a Fiat mostraram que o gasto com a eletricidade com a rodagem de 400 mil quilômetros foi de R$ 30,5 mil – em valores do início desta década. Com a gasolina, o gasto teria sido de R$ 118,7 mil e com etanol R$ 104 mil.

Se o mundo tivesse se esforçado mais, poderíamos ter o carro elétrico há muito rodando em nossas cidades. O clima não teria mudado tanto em razão do despejo de milhões de toneladas de partículas no ar por veículos a combustão – mesmo que em alguns países as matrizes para produção de energia elétrica não sejam também limpas.

Talvez nosso futuro não estivesse ameaçado em razão das mudanças climáticas. Mas ainda há tempo para uma reversão.

Neste contexto, o Brasil não pode nem deve demorar a acompanhar o mundo do futuro. Com o etanol e o carro elétrico, poderíamos estar muito bem na foto.

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