É abrir ou morrer, defende Schiemer

Philipp Schiemer

Num momento de tantas incertezas e deterioração da economia, a ideia de abrir totalmente a indústria automotiva à competição internacional pode parecer, para muitos, um despropósito diante das fragilidades. Mas é exatamente isso o que pensa o presidente da Mercedes-Benz, Philipp Schiemer, alemão que acumula várias passagens pelo Brasil desde que aqui chegou pela primeira vez em 1991. É competir internacionalmente ou morrer. Schiemer não disse exatamente com essas palavras, mas é o que se compreende do pensamento do  executivo que ocupa um dos cargos mais importantes na indústria brasileira.

O presidente da Mercedes-Benz vai mais longe. Para ele, só o mercado nacional já não sustenta ou viabiliza mais tamanha infraestrutura industrial para produzir caminhões e ônibus – segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a capacidade instalada atualmente é de 428 mil unidades, com um quadro de ociosidade atualmente que beira os 80%. Em 2011, a produção chegou a 220 mil unidades e o mercado interno somou cerca de 180 mil unidades – quadro que está longe de voltar a se repetir com a conturbação interna provocada pela crise política.

 

“Infelizmente, se o Brasil não se preparar para competir internacionalmente, não vai conseguir sustentar sua indústria de veículos pesados por muito tempo”, afirma o CEO da Mercedes-Benz, para quem o mercado nacional deverá se estabilizar, num período médio, entre 100 mil e 120 mil caminhões anuais, com mais 30% desse número de exportações. Com a atual capacidade instalada, a conta não fecha, inviabilizando novos investimentos.

 

Quem consegue pensar no seguinte absurdo: atualmente é mais vantajoso para alguns fabricantes exportar caminhões da Europa para a América do Sul do que de suas fábricas no Brasil. Há um oceano separando os dois continentes e imensos custos logísticos, mas ainda assim o país é cada vez mais menos competitivo em razão de uma série de velhos problemas que resultam no conhecido Custo Brasil.

Schiemer defende que abertura total seja feita num período de dez anos. “É um prazo suficientemente adequado para nos prepararmos para a competição internacional, que só trará vantagens para o Brasil com produtos mais sofisticados e alinhados ao que mais de moderno é produzido no mundo. Assim, o Brasil poderá produzir para o consumo interno e para o exterior, sustentado sua indústria, que gera renda e riquezas”, acredita.

Por esse e outros motivos, o executivo defende as reformas trabalhista e previdenciária que tramitam no Congresso. Schiemer afirma ainda que o país precisa reduzir e simplificar sua carga tributária para a exportação, criar regras claras de financiamento aos bens de capital e preparar seu parque industrial, com investimentos e capacitação, para a competitividade global.

“Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, em 1991, o telefone definia o que era ter um país fechado à concorrência internacional”, lembra Schiemer. “Dá para acreditar que a linha telefônica era uma espécie de investimento, que, às vezes, se dava de presente em casamento?”, diz. “Veja o absurdo que era isso depois que o país abriu seu mercado de telefonia à competição internacional.”

Schiemer afirmou que, como alemão, não consegue acreditar que o país se conforme em ocupar a 81ª posição no ranking da competitividade internacional. “Isso não choca ninguém. É um absurdo. O Brasil deveria desejar em sua indústria o mesmo que quer para o seu futebol, que é de estar sempre entre os líderes. Depois de tanto tempo e passagens por aqui, eu não me conformo que o país não consiga realizar seu potencial. A abertura à competição é um caminho para o Brasil perseguir seus objetivos”, o que para ele, resulta também em avanços educacionais e e sociais.

Schiemer considera que a crise trouxe a lição de que a indústria aqui instalada não pode e não deve apostar apenas no mercado doméstico. “Devemos aprender com os erros do passado para que possamos evitá-los”, diz.

Para superar o atual momento – o pior da indústria de pesados, que deverá fechar o ano com o mercado do mesmo tamanho do ano passado, em torno de 52 mil unidades – Schiemer diz que, na Mercedes-Benz, a ordem é o básico, pensando nas soluções que vão resolver os problemas do operadores do transporte sem o uso de artifícios e pirotecnias.

Por isso, ele defende que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que está reformulando sua metodologia de financiamentos para o Finame, seja o mais simples e objetivo possível em suas avaliações de liberação de crédito. “Não adianta ficar pensando em soluções para as novas tecnologias, como caminhão elétrico e autônomo, se o país ainda não tem uma infraestrutura de base para receber isso”, diz.

Schiemer está querendo dizer que agora é a política do feijão com arroz, do pé-no-chão, entre tantas outras expressões brasileiras que significam não dar o passo adiante das pernas. “Pra que caminhão elétrico se não há uma infraestrutura para carregar baterias? Agora não é hora disso. A hora é de construirmos uma base sólida para que o mercado tenha robustez de, no futuro, comportar essas tecnologias, que podem ser facilmente incorporada das matrizes pelas filiais, quando o país tiver plenamente as condições de adotá-las”, pensa.

Schiemer diz estar mais preocupado no momento, na oferta de produtos e serviços que resolvam agora o problema do operador, que está com falta de capital de giro para trocar seu veículo Euro 1 ou Euro 3, que tem mais de 20 ou 30 anos.  Sem renovação de frota, a economia não anda.

Para Schiemer, um dos problemas do mercado nacional é que o caminhão velho não sai de circulação.  “Isso não acontece em outros países”, afirma. “Nós gostamos muitos dos nossos clássicos que estão rodando por aí, mas isso não é saudável para o Brasil, que precisa estar constantemente renovando sua frota para conseguir extrair maior eficiência operacional e modernizar sua infraestrutura”, afirma.

Depois de tantos anos convivendo no Brasil, o executivo acredita que o país vai superar seus desafios desde que seja corajoso para enfrentar o mundo lá fora e começar a resolver suas deficiências internas.

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