Crise faz o Brasil assistir ‘sentado’ pulo do mundo para o futuro

Autonomia, conectividade e eletricidade

Uma década exata. Foi este o tempo que durou a última crise da indústria brasileira antes desta atual que estamos vivendo. Em 1997, os licenciamentos somaram 1.943.458. Após consecutivas quedas nos anos seguintes, o número só viria a ser superado em 2007, com o emplacamento de 2.462.728 veículos.

O boom de 1997 atraiu novas montadoras, classificadas na época como “newcomers”, como a Peugeot e a Citroen, o que elevaria a capacidade instalada nacional na época para algo em torno dos 3 milhões de veículos. Mas, com o ressurgimento da inflação na crise do governo FHC e a eleição de Lula, o mercado cairia em 1999 para 1.256.952 veículos –  próximo do patamar do início da década de 1990.

Se tomarmos como base àquela última crise, ainda estamos longe de superar a atual turbulência da indústria automobilística no mercado interno. Nosso último pico de vendas aconteceu em 2012, com o emplacamento de 3.802.171 veículos. De lá para cá, as vendas caíram até a 2.052.321 licenciamentos no ano passado – o maior tombo da história do setor no País.

A previsão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) é que o mercado interno cresça 4% esta ano ante a 2016, se nada mais atrapalhar a retomada de confiança do consumidor.

Nesta atual crise econômica e política, saíram do mercado quase 2 milhões de consumidores – quase 50% em relação a 2012. Na crise de 1997, o tombo foi menor – oscilou em torno dos 35%. O perfil do consumidor que entrou e saiu do mercado naquela época é semelhante ao que foi “expulso” agora:  são integrantes dos segmentos C e D, que o governo de Lula chamou de nova classe média. Provavelmente, essas mesas pessoas atualmente engrossam as estatísticas oficias de 13,5 milhões de desempregados.

Com o mercado dos dias atuais concentrado fortemente em produtos voltados para um consumidor das classes A e B, com modelos mais procurados na faixa média dos R$ 80 mil, podemos supor que a indústria nacional  só volte a se recompor quando aqueles consumidores que foram “exilados” do mercado consigam um dia voltar.

Por isso, pessoas que entendem de número e estatísticas, como o presidente da JAC Motors, Sérgio Habib, acreditam que as vendas só retornem aos antigos patamares em meados dos anos 2020, quando forem restabelecidas as condições de crédito, governabilidade e empregabilidade, criando a confiança para o ciclo virtuoso da economia.

Até lá, a atual capacidade instalada de 5 milhões vai enfrentar a ociosidade – hoje de 45% na indústria de veículos leves e de 75% na de caminhões. O emprego também vai continuar patinando – mesmo com o crescimento da produção em cerca de 20% este ano por causa do crescimento de 45% das exportações.

O problema é que naquela crise de 1997  o mundo desenvolvido não discutia tanto como agora o uso das novas tecnologias em razão das alterações  climáticas. Enquanto o maquinário da indústria nacional fica parado e “enferrujando”, os países que podem, fazem esforços para pular rapidamente para o futuro.

Os conceitos da autonomia, conectividade, compartilhamento e eletricidade estão na ordem do dia nos mercados desenvolvidos enquanto parece que o Brasil, mais uma vez, fica assistindo a banda passar. Com um mercado cambaleante e ociosidade alta, quem vai se preocupar por aqui com modernidade enquanto muitos estão apenas preocupados com a sobrevivência.

Com o empobrecimento que estamos enfrentando atualmente, essas tecnologias devem chegar por aqui, como sempre, atrasadas, fazendo com que mais uma vez entremos atrás do pelotão de elite na corrida tecnológica. Enquanto o futuro chega mais rápido para alguns a ordem por aqui é manter-se vivo, mesmo que seja preso ao passado.

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