Com Kwid, Renault mostra força e perspicácia ao mercado

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Corria na TV aberta a modorrenta votação na Câmara Federal sobre o destino do impopular presidente Temer, quando a Renault roubou a cena na noite paulistana nessa quarta-feira (02.08). Em um espaço superdimensionado, a montadora apresentou o Kwid com show pirotécnico digno de réveillon na elegante arena do Palmeiras, onde os cantores Gilberto Gil e Anita e artistas globais subiram ao palco para divertir centenas de convivas recepcionados pela Renault. Tudo com um glamour futurista.

Tamanho estardalhaço e gasto não foram apenas para impressionar jornalistas e outras personalidades presentes. A montadora francesa parece ter encontrado a fórmula para estimular e despertar o desejo do consumidor, que, em plena crise como a que estamos vivendo, tem comportamento para lá de mão de vaca.

Num único projeto, a montadora conseguiu casar objeto de desejo (veículos com aparência de jipões) com a escassez de moeda na praça. O Kwid é um carro compacto que a montadora classifica de SUV (esporte utilitário, na sigla em inglês), por sua boa altitude em relação ao solo e bons ângulos frontal e traseiro, que permitem vencer obstáculos tanto em circuitos urbanos quanto os fora de estrada.

 

 

Mas no Kwid não é o segmento o que importa – mesmo num mercado como o nosso onde a indústria muita vezes, à falta de produtos convincentes, inventa classificação de produtos. O carro realmente apresenta um projeto com design muito interessante, bom espaço interno e preço bastante atrativo. As três versões do modelo variam de R$ 30 mil a R$ 40 mil, com motor 1.0 de 65 cv (gasolina) a 70 cv (etanol).

Se é verdade que a carga tributária em cascata “come” 50%  do valor final de um veículo, incluídos custos logísticos, a Renault consegue produzir um modelo totalmente novo na faixa dos US$ 5 mil, embutidos aí lucro do fabricante e revendedor para a versão anunciada por R$ 30 mil – que não deve ser a mais procurada pela pobreza de acabamento: de tão pelada, nem chega a ter ar condicionado e direção hidráulica, por exemplo. Mas como estratégia de marketing funciona muito bem nestes tempos bicudos.

Para quem também, em muitos casos, torcia o nariz para o design francês, que enjoa o consumidor em pouco tempo, o Kwid, que é substituto direto do Clio, encontrou linhas mais harmônicas, ao gosto do brasileiro, bastante influenciado pelos traços da indústria alemã e norte-americana.

Desde quando comandava o conglomerado Renault-Nissan, o executivo Carlos Ghosn cobrava mais resultados da marca francesa no mercado brasileiro. Embora esteja há quase 20 anos no país e entre as dez marcas mais vendidas, a Renault, desde sua implementação no Paraná, na década de 1990,  nunca teve uma pegada como nos últimos tempos, surpreendendo o consumidor e o mercado, como também no lançamento do Captur.

Hoje se vê claramente a mão de Ghosn na virada de jogo tanto da Renault quanto da Nissan no  Brasil, que, embora possa estar cambaleante, tem um potencial enorme no tabuleiro da indústria automobilística mundial pelo número de pessoas que ainda nem chegaram a comprar um veículo novo na vida.

Com o Kwid, a Renault dá uma demonstração de perspicácia ao mercado, sinalizando para os concorrentes que está fazendo uma nova leitura do Brasil. É um aviso direto para a VW, GM e Ford que vai brigar pelo topo, além de mostrar aos asiáticos que tem competência e inteligência para oferecer bons produtos. E com preços mais civilizados para atrair novos consumidores para a marca.

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