Scania vai fabricar caminhão a gás no Brasil em 2020

A Scania iniciará a produção de seu caminhão a gás no Brasil a partir de março do próximo ano e já vai abrir a captação de intenções de compra dos veículos a gás durante a Fenatran (Salão Internacional do Transporte Rodoviário de Cargas), que acontecerá de 14 a 18 de outubro, em São Paulo. O modelo da Scania pode usar tanto o gás natural veicular (GNV) quanto o biometano, sem necessidade de adaptações, como se fosse um flex.

“O gás faz parte do portfólio da Scania e é o combustível alternativo que trará o melhor resultado para nossos clientes na realidade atual. O gás é reconhecido por sua eficiência operacional e é sustentável, permite redução de até 15% na emissão de CO2 e, se for usado o biometano, a redução das emissões pode chegar a até 90%”, destaca Roberto Barral, vice-presidente das operações comerciais da Scania no Brasil.

A montadora já apura os resultados positivos das primeiras experiências feitas com clientes em operações rodoviárias e off road. Atualmente, há um Scania a gás usado em uma operação rodoviária para transporte de suco de laranja da Citrosuco. Um segundo caminhão, modelo fora de estrada, vai entrar em operação na Usina São Martinho em um ambiente confinado e, segundo Silvio Munhoz, diretor comercial da Scania no Brasil, até o final deste ano começarão a rodar mais dois veículos a gás em operações rodoviárias de larga distância, um caminhão em operação confinada e outro que será usado para coleta de lixo.

“A partir de março, teremos capacidade de produzir caminhões a gás tanto com armazenamento de gás comprimido quanto com armazenamento de gás liquefeito. O caminhão é o mesmo, o que muda são os tanques”, explica Munhoz. O caminhão a gás será fabricado junto com os modelos convencionais, na fábrica da Scania em São Bernardo do Campo (SP) que recebeu investimentos de cerca de R$ 20 milhões em preparações para produção e para tornar o ambiente seguro para os funcionários da linha de montagem. A homologação do caminhão Scania a gás está prevista para acontecer até o final deste ano.

Segundo Munhoz, o caminhão que está em operação na Citrosuco, desde dezembro do ano passado, demonstrou uma redução de 15% no custo operacional por quilômetro rodado em relação ao diesel. Além disso, mostrou-se 20% mais silencioso na comparação. É um pesado modelo R 410 da Nova Geração de caminhões Scania, que começou a ser entregue em março deste ano. Ele faz uma rota fixa, justamente para poder ser testado, vai de Matão, no interior de São Paulo, onde fica a sede da Citrosuco, até o Porto de Santos puxando 36 toneladas de suco.

André Leopoldo, Morada Logística, caminhão Scania a gas

O veículo roda em torno de 18 a 20 mil quilômetros por mês, usando apenas gás natural. De acordo com André Leopoldo, diretor-executivo da Morada Logística, que é o operador logístico da Citrosuco no transporte de produto acabado, o veículo a gás tem uma diferença “muito pequena” de rendimento em comparação ao diesel.

O abastecimento é feito em postos ao longo do trajeto, que ofereçam o GNV. “Esta ainda é uma das barreiras, mas temos em estudo a implementação de um posto de abastecimento na nossa garagem, que fica no meio do caminho, em Americana. É um facilitador, vai reduzir o custo”, comenta Leopoldo.

caminhão Scania a gás

Ele explica que são duas as principais dificuldades de abastecimento ainda enfrentadas nessa fase de testes do caminhão a gás. A primeira é quantidade de postos onde se pode encontrar o GNV. “Eles estão mais em São Paulo e no Rio de Janeiro, então, como o caminhão tem limitação de autonomia, é preciso ficar nesses mercados”, diz o executivo. A segunda dificuldade é que os postos que vendem GNV estão preparados para abastecer automóveis, têm uma estrutura de menor porte e o abastecimento acaba ficando mais demorado. Leopoldo acredita que com o crescimento da demanda toda a infraestrutura será melhor preparada para esse combustível. “Estamos orgulhosos de participar de uma ação que pode mudar a história do modelo de transporte do país, declara.

Segundo Leopoldo, a Morada estava em busca de alternativas sustentáveis desde que começou a fazer o projeto com a Citrosuco, em 2018. A primeira experiência foi com um caminhão híbrido diesel/gás, que ainda roda na operação da Citrosuco, parte do tempo com diesel e parte do tempo com gás, em rotas em que não há certeza da disponibilidade de gás para abastecimento. “Com a disponibilidade do Scania 100% a gás optamos por esse modelo”, relata.

Devido ao perfil da operação, de rota longa com carga pesada, ele acredita que o gás é o combustível alternativo que mais se adapta à atividade da empresa que já está interessada também em realizar testes com um caminhão a gás natural liquefeito (GNL) que pode dar maior autonomia para o equipamento.

Parceria para distribuição de gás

Preocupada em garantir o abastecimento de gás para seus potenciais clientes, a Scania fechou parceria com a ZEG, empresa do grupo Capitale Energia, dedicada à geração de energia renovável. “A ZEG é uma das empresas que vão nos ajudar a viabilizar o biometano aqui no país”, diz Márcio Furlan, gerente de marketing e comunicação da Scania no Brasil.

A parceria com a ZEG começará em uma das usinas sucroalcooleiras do Grupo São Martinho com um caminhão modelo G 410 XT 6×4, fora de estrada, movido a biometano. Daniel Rossi, CEO da ZEG e sócio-fundador da Capitale Energia, explica que a empresa desenvolveu uma tecnologia para produzir o combustível em estruturas de médio porte, com escala replicável. O primeiro caminho será o de instalar plantas de produção em parceria com empresas do agronegócio para gerar biometano a partir de resíduos da produção de usinas, como a biomassa da cultura de cana-de-açúcar.

“Utilizando resíduos orgânicos, conseguimos produzir um combustível de excelente qualidade, com performance equivalente ao gás natural e com muitas vantagens ambientais, com redução de até 90% na emissão de gases do efeito estufa”, afirma Rossi. Será feito um projeto customizado para cada cliente que quiser usar o caminhão a biometano da Scania.

A empresa planeja disponibilizar o GasBio a consumidores da chamada “Rota do Agronegócio”, que envolve as rodovias que ligam o Centro-Oeste ao Porto de Santos, e está travando parcerias com fornecedores de equipamentos de abastecimento para postos operarem com segurança o GasBio. Atualmente, o GasBio, como é chamado o combustível da ZEG, é produzido em São Mateus (SP), no distrito de Sapopemba, a partir do biogás do Centro de Tratamento de Resíduos Leste.

“O setor sucroalcooleiro está capitaneando o biometano no Brasil. Mas é possível gerar biogás e biometano até a partir da linhaça”, assinala Munhoz. A perspectiva de uso do gás no país ganhou impulso também com o anúncio de aumento de disponibilidade nas reservas do Pré-Sal.

“Nosso propósito é liderar a transformação para um sistema de transporte sustentável e não poderíamos fazer isso sozinhos – justamente o que mostra esta parceria, de um lado oferecemos a tecnologia e do outro a ZEG viabilizará a produção do combustível e o abastecimento”, comenta Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania Latin America. Vale lembrar que a fábrica de São Bernardo do Campo abastece também a América Latina e há outros mercados que estão com demanda para o caminhão a gás, além do Brasil.

A Scania tem, atualmente, mais de 3 mil caminhões movidos a GNV rodando no mundo.

A jornalista Amarilis Bertachini viajou a convite da Scania.

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