A palavra de Carlos Ghosn merece confiança

Aliança Renault-Nissan
Wagner Oliveira
Wagner Oliveira –

A polarização que contamina a política em vários países também se espalha pelo mundo dos negócios. O caso envolvendo o franco-brasileiro Carlos Ghosn é a maior prova de tempos de exacerbações.

Sob uma alegação de apropriação indébita, o outrora todo poderoso executivo encontra-se preso há meses no Japão para espanto de todos o que acompanharam de perto sua trajetória brilhante, sempre buscando inovações e pressionando seu pessoal por melhores produtos e resultados.

Em recentes declarações publicadas, inclusive por este portal, o executivo se diz vitima de armação empresarial ao tentar estruturar um plano de fusão ente Nissan, Mitsubishi e Renault.

Temendo perda de autonomia e poder, executivos da Nissan teriam, segundo Ghosn, puxado seu tapete, arruinando o nome de um dos CEOs mais atuantes do setor nos últimos anos.

Nos salões de carros na Europa ou em visitas ao Brasil, a palavra de Ghosn sempre provocava fortes repercussões devido ao dinamismo e engajamento do executivo, que reergueu da falência a Nissan, numa parceria inédita com os franceses.

No Brasil, Nissan e Renault também passaram a ter uma nova imagem devido às intervenções de Ghosn, que sempre cobrou melhores resultados de vendas das duas marcas por aqui.

Melhores resultados vieram com a inovação de produtos, investimentos industriais e ampliação e reaparelhamento da rede de distribuidores das duas marcas, que passaram a colher maior projeção e confiança no mercado doméstico.

Ghosn também se esforçou para preparar o terreno do carro elétrico no Brasil, mesmo com todas as limitações locais de infraestrutura. Na Europa, seu trabalho pela eletrificação vinha merecendo um grande destaque.
Em uma de suas passagens por aqui, Ghosn firmou uma parceria para a colocação de carros híbridos e elétricos na cidade de São Paulo, em um projeto piloto autorizado pela Prefeitura de São Paulo.

No final do ano passado, todo mundo que vive entorno da indústria automobilística foi surpreendido com a notícia da prisão do executivo. Seu nome foi massacrado pelo noticiário diário com acusações de lesa empresa.

Quem conviveu com o executivo nas duas últimas décadas, olha para toda essa situação um tanto desconfiado. Como um executivo tão habilitado pode ser acusado de desvios tanto tempo depois de comandar duas grandes corporações?

Nestes tempos de turbulências políticas, não se pode descartar interesses escusos de governos e até mesmo empresariais pela fritura de Ghosn, que diz estar sendo vítima de uma orquestração que envolve auxiliares diretos.

Com a China, no caso da Huawei, não colou. O Canadá deteve a filha do dono da empresa com acusações que envolvem interesses dos Estados Unidos. A China usou seu poder de persuasão para soltar a acusada.

O caso de Ghosn também parece contraria interesses ainda não muito bem claros. O certo é que, por toda sua reputação e tudo que fez, a palavra de Ghosn ainda merece muito mais créditos do que a de muitos governos.
Quem o acompanhou de perto por tanto tempo não pode ter se enganado tanto.

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